Scirtothrips aurantii e Scirtothrips dorsalis em citrinos

Fenologia e ciclo de vida

Scirtothrips aurantii

  • O ciclo de vida completo inclui ovo → larva L1 → larva L2 → pré-pupa → pupa → adulto.
  • Ciclo curto, com gerações sobrepostas ao longo do ano. Uma nova geração pode surgir em cerca de 20 dias em condições quentes e até 40–45 dias em temperaturas mais baixas.
  • Não entra em diapausa no inverno em climas mediterrânicos, mantendo atividade contínua se houver alimento disponível.
  • A oviposição ocorre em tecidos jovens de folhas, ramos e frutos em desenvolvimento, sendo que as larvas de segundo instar causam a maior parte dos danos por alimentação.

Scirtothrips dorsalis

  • Similar em ciclo de vida ao S. aurantii, com desenvolvimento rápido que pode ocorrer em 10–20 dias, dependendo das condições e das plantas hospedeiras.
  • Também é polifágico e apresenta múltiplas gerações por ano.

Hospedeiros e riscos associados

Ambas as espécies são extremamente polífagas, atacando uma ampla gama de plantas:

  1. aurantii: Principalmente citrinos (Citrus sinensis — laranjeira, Citrus limon — limoeiro, Citrus reticulata — tangerineira, etc.) mas também observada em figueira, macieira, murta, abacateiro, pêssego e outros.
  2. dorsalis: Além dos citrinos, pode atacar uma grande variedade de culturas hortícolas e ornamentais, incluindo pimenteiro, tomate, videira, morangueiro e muitos outros géneros botânicos.

Sintomas de ataque em citrinos

Os impactos destas tripes estão ligados principalmente à alimentação das larvas e adultos nas partes jovens da planta:

Sintomas visíveis

  • Folhas jovens com zonas prateadas ou acastanhadas e distorcidas, devido à sucção de células epidérmicas.
  • Cicatrizes acinzentadas ou prateadas na casca dos frutos, muitas vezes perto do pedúnculo.
  • Queda prematura de flores ou frutos jovens em casos severos.
  • Danos extensos podem reduzir o valor comercial dos frutos mesmo que o insecto não esteja presente na colheita.

Luta fitossanitária em Portugal

A abordagem em Portugal inclui medidas fitossanitárias oficiais e práticas de controlo integrado — combinando métodos químicos, biológicos e de prevenção.

“De acordo com o artigo 53.º do Regulamento (CE) n.º 1107/2009, de 21 de outubro, em circunstâncias especiais, um Estado-Membro pode autorizar, por um prazo máximo de 120 dias, a colocação no mercado e utilização de produtos fitofarmacêuticos com vista a uma utilização limitada e controlada, se tal medida parecer necessária devido a um perigo que não possa ser contido por quaisquer outros meios razoáveis” (Fonte AUTORIZAÇÃO EXCECIONAL DE EMERGÊNCIA N.º 2025/47ª – DGAV)

Luta química

A DGAV já emitiu autorizações excecionais de emergência para produtos fitofarmacêuticos destinados ao controlo de S. aurantii e S. dorsalis em plantas hospedeiras, utilizadas dentro de planos de contingência. Um exemplo é o uso espirotetramato, ciantraniliprol e ácidos gordos.

“Considerando ainda que, no caso dos citrinos, é possível extrapolar para a espécie Scirtothrips aurantii e S. dorsalis a utilização de substâncias ativas (e respetivos produtos fitofarmacêuticos) identificadas no âmbito de uma estratégia de controlo químico para controlo deste inimigo em citrinos com base em ensaios efetuados pelo IVIA, apresentado pela “Generalitat Valenciana”, em Espanha, designadamente: - acetamiprida; flonicamida nas condições aprovadas para uso no controlo de afídeos e óleo parafínico nas condições aprovadas para controlo de cochonilhas, no período compreendido desde 70% da queda das pétalas até 40% do tamanho final do fruto (3-5-cm Ø).

Finalmente, com base na AEE dada por Espanha à s.a. spinosade, em citrinos, também se autoriza a sua utilização, para controlo destas duas espécies, nas seguintes condições: - dose 250 L/ha, com volume de calda de 1000-1500 L/ha, com um máximo de duas aplicações e IS de 7 dias.” (Fonte AUTORIZAÇÃO EXCECIONAL DE EMERGÊNCIA N.º 2025/47ª – DGAV)

Nota: Todos os tratamentos químicos devem obedecer à legislação vigente, ao rótulo e à orientação técnica das autoridades regionais.

Luta biológica e integrada

Embora a literatura específica de agentes biológicos para estas espécies em Portugal ainda seja incipiente, princípios gerais de controlo biológico e proteção integrada aplicam-se:

  • Uso de predadores naturais (por exemplo, ácaros predadores) que podem reduzir populações de tripes.
  • Fungos entomopatogénicos (como Beauveria bassiana ou Lecanicillium spp.) são frequentemente estudados como alternativas não-químicas para thrips em sistemas de gestão integrada.
  • Métodos como armadilhas cromotrópicas e monitorização regular ajudam na deteção precoce e redução de danos.

A Proteção Integrada de Culturas enfatiza a monitorização e a aplicação de medidas apenas quando necessário, privilegiando métodos biológicos e culturais antes do uso de químico

 

Monitorização (fase mais importante):

  • Rebentação jovens, especialmente folhas novas e tenras.
  • Botões florais e flores abertas.
  • Parte superior da copa, onde há mais sol e calor.
  • Temperaturas 25–30 °C e humidade relativa 40–70% HR

Como monitorizar

  • Bater ramos sobre uma bandeja branca → contar tripes móveis.
  • Lupas ou microscópio de mão para observar ninfas jovens nas folhas.
  • Armadilhas adesivas amarelas → úteis para deteção, não para estimativa precisa.

Frequência

  • Semanal na primavera e outono.
  • A cada 3–4 dias quando houver forte rebentação + clima quente e seco.

Nível de ação (prático)

  • 10–20 tripes/10 árvores ou
  • 3–5 tripes por bandeja em períodos de rebentação intensa.

Ambiente: redução de condições favoráveis

Scirtothrips desenvolve-se em temperaturas altas e humidade moderada a baixa.

Manter rega estável

  • Evitar stresse hídrico → plantas stressadas atraem mais tripes.
  • Humidade relativa muito baixa favorece atques.

Controle cultural

  • Eliminar ervas daninhas hospedeiras próximas (ex.: solanáceas, malváceas).
  • Sincronizar podas para evitar múltiplos ataques descoordenados.
  • Evitar adubação azotada excessiva, que gera rebentação muito tenra e atrativa.

Controle biológico

  • Inimigos naturais eficazes:

    • Amblyseius swirskii (ácaro predador) → excelente para ninfas.
    • Orius spp. (percevejo predador) → eficaz contra adultos e ninfas.
    • Beauveria bassiana → útil em condições de humidade.

Como aplicar

  • Introduzir A. swirskii no início da rebentação.
  • Aplicar B. bassiana no fim da tarde (fungo sensível à luz UV).
  • Evitar inseticidas de amplo espectro para manter inimigos naturais.

Controle químico (quando necessário)

Usar apenas quando nível de ação for atingido, para evitar resistência. Alguns auxiliares não são compatíveis com a estratégia química.

Boas práticas:

  • Focar em rebentação nova, onde os tripes realmente se alimentam.
  • Aplicar logo no início do ataque, quando há mais ninfas expostas.
  • Repetir aplicação apenas quando necessário, conforme monitorização.